Quem tem medo de música clássica
Sábado, 10 Maio 2008Foi com extremo pesar que tive a notícia de que Artur da Távola, jornalista e ex-senador pelo PSDB-RJ, faleceu ontem, dia 9 de maio. Sendo assim, este post é dedicado a ele. Política à parte, tenho grande admiração pelo Artur, não apenas por ter sido uma pessoa que sempre acreditou no nosso país, mas também porque apresentava com eloqüência o programa “Quem tem medo de música clássica”, na TV Senado, provavelmente o único programa que presta neste canal que todo mundo passa batido pelo controle remoto.

Quantas e quantas vezes, passeando pelos canais de TV a cabo, acabei parando na TV Senado só para assistir ao programa dele até o fim. De uma sensibilidade e articulação singulares, Artur da Távola transformava a música erudita em poesia, analisando e comentando diversas obras com maestria. Definitivamente, um apaixonado pelas Artes!
Em 2001, no anuário VivaMúsica!, Artur escreveu uma pequena crônica sobre seu primeiro encontro com os clássicos. Segue abaixo a reprodução do texto:
“Eu era criança, anos 40 do século vinte, o mundo em guerra. Meu pai era um homem calado, atormentado pela morte de uma filha, minha irmã mais velha. Tinha um rádio.
Vestia seu pijama abotoado até em cima e após o jantar sentava-se a fumar e a ouvir o rádio. Entravam os sons da guerra. Nada sabia de guerras, mas sentia no ar o clima de dor.
Felizmente entrava logo depois do noticiário, enquanto eu brincava de soldadinho de chumbo na sala única de nossa casa de vila, o som das rádios Ministério da Educação e Jornal do Brasil. Alguns me encantavam. Familiares ficaram.
Anos depois, já rapaz, comecei a relacionar os sons da infância com o nome de compositores.
E por intermédio de dois deles penetrei nos umbrais da música: Tchaikovsky e Liszt, dois gênios da melodia. A eles devo a facilidade de acolher a música chamada erudita em minha sensibilidade.
Um dia ganhei o disco do Concerto número 2 de Brahms. E aí tudo começou de fato, um novo mundo se abriu em minha vida numa procura que não acabará enquanto viver.
Para ajudar esse processo, fui trabalhar como locutor e depois, redator, da Rádio MEC, em 1956, quando vivi por dentro episódios musicais próximos e distantes.
Hoje sou um dependente químico, físico e psíquico da música, enfermidade que não demanda tratamento. Ela é o tratamento.”
E, pra fechar esta dedicatória com chave de ouro, aí vai um episódio de “Quem tem medo de música clássica” sobre nada menos que Frédéric Chopin. Como Artur da Távola dizia, “música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”:





