Balanço da 2ª viagem ao Japão
quarta-feira, 26 março 2008Pode parecer pouco, mas as 2 semanas que passei em Iwama foram suficientes para fazer muitas, muitas coisas.
Logo no 2º dia de treino com Nemoto Sensei, tive mais uma vez a oportunidade de treinar ikkyo, nikyo, sankyo, yonkyo, shihonage, kokyunage e koshinage. Em seguida, fizemos o sanjuichi-no-jo-no-awase. Em apenas 2 horas de aula, fiquei com os braços completamente destruídos de cansaço e os pulsos já esboçavam algumas feridas.
A partir do dia de 15 março, tive o prazer de compartilhar o Aiki House com 3 russos provenientes de Moscou: Vladimir, 3º dan, Viktor, 2º dan, e Vladimir, 5º kyu. Logo de cara, percebi que eles não eram nada parecidos com a imagem que eu tinha do típico russo. Observação: somente um deles falava inglês, o que dificultou bastante a minha interação nos primeiros dias.
É impressionante a quantidade de bebida consumida pelos russos. É quase como se fossem movidos a álcool. Todos os dias eles bebiam algo como vodka, uísque, conhaque ou bourbon. No dia em que chegaram, acho que brindamos ao menos 10 vezes - cada uma delas acompanhada de uma nova dose - fosse em nome do Aikido, da família ou da paz mundial. Rapidamente, ficamos entrosados e rimos muito.
Ao longo dos dias, fizemos incursões em Mito, Tsuchiura e Tokyo (Ueno, Akihabara, Asakusa e Shibuya). Os passeios foram exaustivos, mas valeram a pena. Tivemos a chance de conhecer o Zoológico de Ueno, o templo budista Sensoji e, é lógico, alguns shopping centers. Em Tsuchiura, saciei o desejo de comer okonomiyaki - uma espécie de panqueca - e enfiei o pé na jaca ao experimentar estranhos donuts que se diziam ser de chocolate.
O tradicional jantar com Nemoto Sensei - que, desde a virada do ano, passou a ocorrer às quartas-feiras - foi regado de cerveja, vodka, sake e cachaça, para o deleite de todos. Viktor gostou tanto da bebida que eu trouxe, que fez o favor de acabar com ela. Nesta noite, contamos com a ilustre presença de Shigemi-san e Oku-san, mulher do Sensei; Nemoto bebeu de tudo e deixou o Aiki House levemente calibrado.
No dia 24 de março, véspera da minha partida, tivemos a nossa festa de recepção - e, no meu caso, de despedida também - no Ibaraki Dojo. Como não podia deixar de ser, Inagaki Sensei presidiu o evento. Pela primeira vez, tive a honra de sentar ao seu lado e acabei bebendo mais do que desejava.
Eu, Enzo e Helgi - que são uchideshis do Ibaraki Dojo - preparamos uma deliciosa caipivodka com açúcar colombiano, este trazido por Enzo. O resultado não poderia ser melhor! Todos se amarraram na bebida.
Como de praxe, todos tivemos de cantar alguma coisa e eu repeti o já famoso pout-pourri “Madalena do Jucú”, de Martinho da Vila, com “We Will Rock You”, do Queen. Essa façanha obviamente só acontece porque ninguém segue o ritmo do samba e o batuque acaba por ficar igual ao som que as torcidas de basquete americano fazem.
Ao final da festa, Inagaki Sensei me deu um caloroso abraço e, inesperadamente, ofereceu-me ajuda na obtenção de um visto japonês de longo prazo, caso assim necessite em minha próxima visita ao Japão.
No dia da minha partida, havia treino com Nemoto Sensei às 5:45 da manhã e, infelizmente, não tive condições de ir. Sequer consegui ouvir o despertador. Acordei no susto, às 8:00, ainda zonzo da bebedeira e tratei de arrumar minhas coisas pra viagem. Às 9:30, lá estava Shigemi-san para me dar uma carona até a cidade de Mito, onde pegaria o ônibus de 10:27 para o Aeroporto de Narita. Pra variar, ela me deu alguns presentes e disse coisas pra mim que vou guardar sempre em meu coração.
A viagem de retorno ao Brasil correu bem e o que posso dizer é que esta minha segunda estadia no Japão foi bem diferente da primeira; apesar de curta, ela fechou um ciclo que ainda estava incompleto. Como disse a Neela, há poucos dias, viver no Japão como uchideshi é uma experiência que modifica (pra melhor) a sua vida; é algo tão forte, profundo e intenso que fica difícil negar que a percepção sobre as coisas não seja mais a mesma. Hoje, estou resoluto em visitar Nemoto Sensei ao menos uma vez a cada 2 anos. E, se for possível, farei uma visita a Enzo - no Chile ou EUA - e/ou aos meus amigos russos no ano que vem… Sementes foram plantadas e já começam a ser colhidas!





